segunda-feira, 2 de março de 2015

Fazendeiros ameaçam realizar despejo de indígenas Kaiowá “com as próprias mãos”

Há exatamente uma semana atrás, o Conselho Indigenista Missionário (Cimi) denunciou a investida de jagunços armados contra um jovem Kaiowá nas imediações de Naviraí, município ao sul do Estado do Mato Grosso do Sul. Em busca de informações sobre as lideranças da tekoha – lugar onde se é - Kurupi, cerca de 20 homens armados sequestraram um jovem de 17 anos e infringiram contra ele uma longa e aterrorizante sessão de tortura psicológica. Os aspectos desse crime, somados à sistemática onda de violência acometida contra os povos indígenas, revelariam a continuidade da formação de milícias antiindígenas por parte dos ruralistas no Estado.

Apesar das constantes denúncias da comunidade de Kurupi, que chegou a protocolar, formalmente, a ocorrência na Polícia Civil, Polícia Federal e no Ministério Público Federal, os ataques continuam sem que os indígenas possam contar com nenhum tipo de proteção.

Nesta terça-feira, 25 de fevereiro, por volta das 20h, uma liderança de Kurupi ligou para um missionário do Cimi para pedir ajuda e narrar outro fato de violência contra sua comunidade. Segundo o relato, um indígena voltava para a comunidade indígena, caminhando ao longo da BR-163, quando um fazendeiro conhecido da região, ao qual os indígenas atribuem vários ataques sofridos desde o ano passado, o abordou de dentro de sua caminhonete dizendo claramente que "as horas dos indígenas estavam contadas”.

O fazendeiro prosseguiu com as ameaças afirmando que, uma vez que a Justiça não cumpriu com seu papel (referiu-se a um pedido de reintegração de posse indeferido pela Justiça), os fazendeiros tratariam de realizar o despejo dos indígenas "com as próprias mãos”. Continuou dizendo que o ataque seria realizado à noite. Sorria e afirmava que seria "nesta noite ou em noite próxima” e que "uma vez que os indígenas não tenham entendido o último recado” (referindo-se ao atentado contra o jovem na semana passada), a solução seria "enterrar todos os indígenas definitivamente na terra que tanto querem”.

O fazendeiro afirmou ao Kaiowá que não agirá sozinho e que traria consigo muitos "contribuintes” para executar a ação. Após a partida do agressor, o indígena correu pela BR até estar seguro dentro de seu tekoha. Minutos depois, um espectro de terror e apreensão recaiu sobre as famílias indígenas de Kurupi. Ao cair da noite, caminhonetes com os faróis apagados começaram a passar em frente ao tekoha mostrando objetos aos indígenas, que os mesmos presumem tratar-se de armas. As caminhonetes pararam em frente ao Kurupi e lá permaneceram por mais de uma hora em caráter de vigília e cerco fechado. Depois partiram, deram a volta, voltaram a passar em frente ao Kurupi e então se aglomeraram com mais alguns veículos a poucos metros do tekoha.

Enquanto isso, os indígenas puderam escutar o barulho de veículos rondando a parte de trás da área por eles ocupada. Os barulhos vinham, justamente, do local m que, no dia 22 de outubro de 2014, uma caminhonete invadiu a comunidade, a partir da mata, e tentou sequestrar um indígena cadeirante.

Até o último contato estabelecido com a liderança de Kurupi, os indígenas afirmavam, categoricamente, que os carros continuavam lá e que os barulhos advindos da mata aumentavam. "Estamos aqui lembrando do sequestro do Ivo (cadeirante), das expulsões que sofremos, das mortes de dois parentes, escutamos os barulhos dos carros. Por favor, avise a polícia. Tente nos ajudar porque não temos mais ninguém. Sabemos do que eles são capazes, isso já sentimos na pele. Resistiremos como podemos, mas eles são muitos, que Deus nos ajude”.

Diante do exposto, o Cimi volta a denunciar as investidas criminosas de fazendeiros e jagunços na região de Naviraí. "É inaceitável o silêncio das autoridades frente às inúmeras denúncias realizadas por esse grupo Kaiowá, que luta pelo direito constitucional de ocupação de seu território tradicional, o que para eles significa uma última chance de viverem com a mínima dignidade. A violência na região se faz presente e mora literalmente ao lado dos indígenas, em especial é vizinha à comunidade de Kurupi. Novamente, alertamos: caso providências não sejam tomadas, o desfecho para essa situação será novamente uma tragédia há muito anunciada, simbolizada em um pedido de socorro, calado pela força bruta dos ruralistas e pela inércia dos responsáveis por assegurarem ao povo Kaiowá seu direito constitucional mais sagrado, o acesso à terra de ocupação tradicional”.

A terra indígena em questão já foi definida, através dos estudos de identificação realizados pela Funai [Fundação Nacional do Índio] como sendo de ocupação tradicional.


Fonte: Conselho Indigenista Missionário - CIMI

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