segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Desigualdade contribui para agravar violência contra crianças e adolescentes

A pesquisa "Infância e violência: cotidiano de crianças pequenas em favelas e cortiços”, realizada entre 2012 e 2014 pelo Centro de Análises Econômicas e Sociais da PUCRS (Caes), mapeou a violência no cotidiano das crianças de zero a oito anos de idade nas favelas do Rio de Janeiro, São Paulo e Recife [Pernambuco]. O estudo revela que as crianças sofrem violência física e psicológica a partir do primeiro ano de vida, intensificando entre os dois e quatro anos de idade. A mulher ocupa um lugar central no contexto da violência na comunidade e nas famílias, em um sistema hierárquico de reprodução, no qual o pai bate na mãe, que agride o filho e este reproduz o comportamento agressivo com outras crianças mais novas.

Para o coordenador da pesquisa, o professor e sociólogo Hermílio Santos, "existe uma violência cotidiana que subjuga, que faz sofrer, de forma silenciosa, um contingente não oficial de pessoas indefesas, que são justamente as crianças". De acordo com o estudo, a violência contra a criança não é só permitida nas comunidades, como aceita e ainda considerada como uma ação educativa.

Os resultados apontam que as mães são as que mais aparecem como responsáveis por atos violentos (grito, castigo, violência física). Em Recife, 73% das mães batem nos filhos; no Rio, 71%; e em São Paulo, o número cai para 58%. Tanto em Recife (71%) quanto em São Paulo (51%), as avós são as pessoas que mais batem nas crianças depois das mães.

As drogas e o tráfico também aparecem diretamente relacionados à causa da violência fora de casa. No Rio de Janeiro, 51% dos pais ouvidos já viram ações de tráfico nas ruas da comunidade. No Recife, foram 82%. crianças testemunhas de tais crimes, 46% no Rio e 36% em Recife.

Sobre invasões policiais, o estudo relata casos de abusos e violência. Uma participante conta sobre uma operação que aconteceu na Favela do Parque Maré (Rio) na qual os policiais atiravam de helicópteros no chão e as balas batiam na porta da sua casa. As crianças comentam que, quando os policiais invadem as casas, reviram tudo, "eles têm uma chave que abre todas as portas”, cita uma menina entrevistada. Os depoimentos denunciam que as pessoas são tratadas como bandidos apenas por serem moradores da favela. Uma participante comenta ainda que alguns policiais entram na casa das pessoas e jogam droga em cima do sofá, afirmando ter encontrado a droga ali.

A 5ª edição do Índice de Homicídios na Adolescência (IHA) no Brasil, que monitora a incidência de homicídios entre a população jovem, também constata que mais de 33.000 adolescentes foram mortos por homicídio entre 2006 e 2012. A estimativa é de que 42 mil adolescentes, de 12 a 18 anos, poderão ser vítimas de homicídio nos municípios brasileiros com mais de 100 mil habitantes entre 2013 e 2019. Em 2012, por exemplo, a mortalidade por homicídio de jovens nessa faixa etária foi a mais alta dos últimos oito anos. Os dados são mais graves para jovens negros do sexo masculino. A possibilidade de jovens negros serem assassinados é 2,96 vezes maior do que os brancos. Adolescentes do sexo masculino apresentam um risco 11,92 vezes superior ao das meninas. A pesquisa foi coordenada pelo Observatório de Favelas, realizada em conjunto com o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) e a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República (SDH/PR).

Em entrevista à Adital, o gestor de relações institucionais da Pastoral da Criança, Clóvis Boufleur, comenta sobre o contexto da violência infantil no Brasil e a percepção e ações da Igreja sobre essa realidade.

Adital: Como a Pastoral avalia o contexto de violência infantil brasileiro?

Clóvis Boufleur: A violência tem uma relação direta com as condições familiares, como a situação financeira/econômica e as oportunidades para a família. Tem raiz na oportunidade que a família tem de conhecimento e de transmissão de valores. Nas regiões onde há mais desigualdade entre ricos e pobres, é maior o índice de violência.

Juntamente com a saúde, a violência está entre as principais preocupações das pessoas. Apesar de todos os avanços, o Brasil ainda é um dos 12 países mais desiguais do mundo. Na América Latina, isso pesa muito. A realidade está muito aquém do que é preciso para se ter um país mais equânime.

Adital: Como é percebida a situação da mulher nesse contexto da violência infantil?

Boufleur: A prevenção da violência começa já no ventre da mãe, durante os nove meses de gestação, que devem fazer parte dessa promoção e prevenção da violência. Quanto melhor a mãe se relaciona com a criança no ventre, melhor as condições de saúde e menor a relação de violência.

A mulher tem a dupla jornada de trabalho e, na maioria das famílias, a 3ª jornada, que é a educação dos filhos, tarefa ainda delegada especialmente para ela. Isso aumenta o nível de tensão na família. O homem ainda não assume de fato seu papel de orientar e colocar limites, o que não é punição, mas é dizer até onde a criança pode ir. Se o homem assumir mais seu papel, a tensão deve diminuir.

As mães batem mais porque convivem mais com a criança. Estudos revelam que a cabeça é a parte do corpo em que mais se bate e isso repercute muito no psicológico da criança. O aprendizado da família sobre o cuidado com as crianças foi perdido. Não se recebe orientação em casa como ser pais e ser mãe. Queremos construir famílias melhores para o futuro para se ter uma sociedade melhor.

Adital: Como a Pastoral avalia a atuação da polícia diante da violência?

Boufleur: É necessário levantar a bandeira de que a lei no Brasil vale 100% para todos, desde o mais simples ao mais rico. Por que a lei é branda para alguns? As punições para os agentes públicos são mais leves. Em outros países, existe tratamento igual.

Adital: De que forma a Igreja tem apoiado as comunidades carentes no enfrentamento da violência?

Boufleur: Todas as tradições religiosas precisam renovar seu compromisso com a família. Entende-se por tradição religiosa tudo que tem a ver com práticas espirituais.

A religião tem a capacidade de enfrentamento político e social. Ela consegue chegar ao núcleo, ao coração da família, onde o Estado não tem acesso. É preciso realizar esse poder, e também uma responsabilidade, para promover mudanças.

É importante proporcionar mais espaços para a criança se desenvolver. Hoj, a criança sai da família e vai para a creche. São necessários mais espaços de convivência. Onde brincam as crianças brasileiras? Quais os espaços seguros? Os orçamentos voltados para a criança ainda são pouco, assim como políticas apropriadas.

A Pastoral da Criança participa, hoje, de duas importantes frentes mundiais de movimentos interreligiosos: a Rede Global das Religiões pela Criança (GNRC)e o Projeto Centralidade da Criança (Proyeto Centralidad de La Niñez). São frentes que interagem constantemente através de projetos e iniciativas voltadas à promoção e o desenvolvimento integral das crianças.


Fonte: Adital

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