domingo, 25 de janeiro de 2015

Mulheres tornam-se fortes protagonistas e consumidoras de games

Já não é surpresa para muita gente que o mundo dos videogames deixou de ser predominantemente masculino. Cada vez mais, mulheres têm demonstrado forte presença não apenas na produção de títulos, mas também se revelado como uma grande parcela do público consumidor. E elas tiveram bons motivos para comemorar ao longo dos últimos meses, após verem muitos jogos protagonizados por personagens femininas figurarem nas recentes listas de melhores games da atualidade.

E, em Brasília, não faltam meninas que tiveram a oportunidade de testar esses jogos. O Correioconversou com fãs de games e desenvolvedoras independentes da capital, além de mulheres de outras partes do país, para saber o que elas acham da representação feminina no mundo dos games atualmente.

Um dos grandes destaques recentes é Transistor, jogo do estúdio independente Supergiant Games, celebrado pela direção de arte, trilha sonora e jogabilidade. Na trama, Red, uma cantora, é atacada por uma organização criminosa e perde a voz no processo, mas ganha uma arma poderosa: uma espada com a voz de um homem, capaz de conversar com ela.

“Gostei da Red por ser uma personagem mais adulta e desenvolvida. Ela tem vontades e aspirações próprias, ela faz o que quer”, explica Catharina Baltar, artista da The Balance Inc., um dos principais estúdios independentes de games em Brasília. “Mesmo que a espada frequentemente diga para ela fazer ou deixar de fazer, a Red muitas vezes não dá ouvidos e age como acha certo”, complementa.

Para a estudante de publicidade e fã de games Yasmin Oliveira, o jogo decepcionou. “Ela é uma cantora e personalidade influente, mas ela não tem ou constrói qualquer profundidade ao longo da trama. E toda voz ativa é da espada. Red apenas a carrega, dando a falsa impressão de protagonista. A mulher acaba sendo, novamente, acessório para um personagem masculino mais importante”, opina Yasmin.

A mesma questão não foi um ponto negativo para a crítica e pesquisadora de games Flávia Gasi. “Acho que é uma metáfora sobre a perda da voz das mulheres na cultura pop. E Red luta para recuperá-la”, analisa.

Sobrevivente do espaço

Após um histórico de jogos não muito bem recebidos pela crítica, a franquia Alien conseguiu surpreender com Alien: Isolation, um título de terror e sobrevivência em primeira pessoa, protagonizado por Amanda Ripley, a filha de Ellen Ripley (heroína da clássica série de filmes de ficção científica). “Ela me pareceu uma representação bem crível de uma pessoa com forte instinto de sobrevivência em uma situação de perigo real”, acredita Thais Weiller, designer do estúdio independente JoyMasher, de São Paulo.

Para Flávia Gasi, Ripley é uma das melhores protagonistas de games do ano passado. “Ela tem uma profissão que é útil no jogo e ela sobrevive porque é inteligente. É uma grande homenagem à série de filmes, por ter uma mulher forte e independente. Isso era algo ausente nos jogos Alien até agora”, relembra a crítica.

A liberdade das indies

Um dos casos mais controversos e recentes da indústria de jogos foi o fato de a desenvolvedora Ubisoft ter afirmado que desistiu de incluir uma personagem jogável feminina em Assassin’s Creed: Unity porque seria trabalhoso demais. Críticas ao estúdio afirmaram que se tratava de mera desculpa e reacenderam o debate sobre o medo de grandes nomes do mercado em criar títulos com protagonistas mulheres.

“Essas empresas grandes ficam receosas de ter personagens femininas de destaque porque, aparentemente, isso vende menos”, comenta Mariana Ponte, compositora musical da The Balance Inc. Por não terem tanto essa preocupação, os estúdios indies, portanto, têm mais liberdade, acredita Mariana.

Para Thais Weiller, esses jogos maiores são caros demais para se darem ao luxo de não venderem bem. “Assim, eles sofrem do mesmo problema de Hollywood: o protagonista homem, branco e genérico sendo o principal na maioria dos filmes, mesmo quando a história seria mais interessante no ponto de vista de outra pessoa”, critica a designer. “Como indies têm menos dinheiro investido, eles correm menos riscos e fica mais fácil ousar em tudo, de jogabilidade a personagens.”

Melhorias necessárias

Apesar de bons títulos recentes com personagens femininas, a indústria ainda tem muito a aprender. “A maioria dos jogos ainda as retratam de forma bem rasa e sexualizada. No geral, são poucos casos de títulos com mulheres fortes e independentes”, aponta Catharina Baltar. Para Yasmin Oliveira, a representação da mulher nos games precisa de uma melhora em diversos aspectos. “Isso vai desde a hiperssexualização desnecessária das roupas à falta de representatividade de personagens que saiam do padrão eurocêntrico: branca, magra e peitos grandes.”

O papel desempenhado por essas personagens também precisa ser bem elaborado, acredita Flávia Gasi. “O que precisamos é ter jogos em que elas não existam apenas porque elas avançam a narrativa de um homem na história, mas porque a trama precisa delas.”

Os principais games atuais com protagonistas femininas

» Transistor
» Child of Light
» The Walking Dead: Season 2
» Alien: Isolation
» Bayonetta 2
» Never Alone
» The Last of Us: Left Behind


Fonte: Correio Braziliense

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