segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Mulheres experimentam a maternidade após doação de espermatozoides

“Colocou na minha barriga, é meu!”, resume Nicole*, 46 anos. Assim ela justifica o fato de ter decidido com o marido, Tiago*, 67, não contar ao filho de 2 anos que ele foi gerado pela adoção de um embrião em uma clínica de fertilização do Rio de Janeiro. Casados há 20 anos, eles confirmam que nenhum dos membros de ambas as famílias sabe do tratamento a que recorreram para ter Lucas*. “Não vejo como a manutenção de um segredo, mas como uma questão que diz respeito somente a nós, de cumplicidade”, diz a dona de casa. Após tentar por anos diferentes técnicas de fecundação, os dois optaram pela implantação de um embrião doado por outro casal que, de acordo com as regulamentações do Conselho Federal de Medicina (CFM), deve ter a identidade mantida na anonimidade.

No processo de fertilização in vitro, nem sempre todos os embriões produzidos a partir da união dos óvulos e dos espermatozoides recolhidos são implantados no útero da paciente. Para isso, também há regulamentação: mulheres com até 30 anos somente podem implantar dois; de 35 a 40, três; e acima dos 40, até quatro. Os embriões além dessa quantidade devem ser armazenados. “São implantados os melhores, de acordo com uma avaliação morfológica. O que não significa que os que ficam não são bons. Somente são guardados embriões que mostrarem ter características positivas”, ressalta Maria Cecília Erthal, diretora-médica do Vida — Centro de Fertilidade da Rede D’Or.

Após cinco anos, caso os pais decidam por não ter uma nova gravidez, os embriões podem ser doados para experimentos científicos, para adoção ou ainda descartados. “Quanto mais jovem, maior a quantidade de óvulos e, consequentemente, maior a quantidade de embriões”, explica Erthal. A idade também interfere na possibilidade de a fertilização dar certo. Se for de uma mulher que retirou os óvulos com até 30 anos, a chance é de 70%; entre 30 e 35 anos, as taxas ficam em torno de 48% a 50%; e, de 35 a 38 anos, caem para 40% a 35%. “Acima disso, nem temos embrião para doação, porque as mulheres não produzem uma quantidade suficiente para sobras”, diz a médica.

Nicole decidiu buscar um profissional que avaliasse a dificuldade que tinha para engravidar quatro anos após o casamento. Os preços para uma tentativa em laboratório, na época, eram impensáveis. “Esperamos até 2006, quando fiz a primeira implantação. De lá para cá, tentamos de todos os jeitos. Com o meu óvulo e sêmen de doador, o sêmen dele e óvulo de doadora e, depois, umas três vezes com embrião doado”, lembra. Assim como ocorre com os doadores de sêmen, o perfil do casal que cede o embrião pode ser avaliado por quem vai recebê-lo. “A pessoa sabe informações como cor da pele e dos olhos para que fique uma configuração mais harmônica. Mas é só”, detalha Erthal.


Fonte: Correio Braziliense

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