segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A partir do Chile, campanha pede que ONU declare a pobreza como ilegal

Há quatro anos de a Declaração Universal dos Direitos Humanos completar 70 anos de existência, uma campanha internacional envolvendo várias segmentos sociais propõe que a Organização das Nações Unidas (ONU) emita, em 2018, uma declaração que considere ilegal a pobreza. No Chile, a campanha é encabeçada pelo bispo vigário apostólico da Província de Aysén, Luis Infanti, que afirma que "neoliberalismo e catolicismo não andam de mãos juntas”.

Em entrevista ao periódico Diario Uchile, publicada recentemente, Infanti afirma que o sistema neoliberal define a pobreza em função da quantidade de dinheiro, modelo que tem sido replicado em políticas públicas e estatísticas de governos que sustentam uma redução dos índices de pobreza nos países, ao longo do tempo. Diante disso, ele propõe uma mudança no olhar sobre o conceito de pobreza e empobrecimento.

"A pobreza, eu acredito, deve ser pensada um pouco mais além das moedas e do dinheiro. Há de se pensar na indignidade da pessoa, todas as situações, que fazem com que uma pessoa seja menosprezada, ofendida, ferida em sua dignidade chamamos pobreza. O econômico é um elemento importante, claro, mas não o único, certamente”, argumentou o bispo.

Para Infanti, a desigualdade produz pobreza, porque cria situações de marginalização. O bispo discorre que isso pode ser observado com muita clareza e não é casualidade, mas sim fruto de uma política em longo prazo, de uma construção social. "As pessoas que vivem a pobreza se sentem indignas, menosprezadas, diminuídas e, certamente, se sentem menos cidadãs”, apontou.

Nesse sentido, Infanti diz que há um princípio neoliberal por trás da estrutura social, o que sugere que, como não se pode eliminar de forma direta a pobreza, é necessário eliminar os pobres; ideia, para ele, "terrível, trágica, desumana, imoral e antiética”.

Além disso, acrescenta que é preciso repensar o modelo para localizar as ideias matrizes da marginalização, no intuito de transformar a sociedade. "Há uma estrutura social, há intencionalidade, há leis, há organizações, grupos, pessoas que marginalizam todos. A mesma Constituição, a Constituição Política do Estado do Chile, a que rege atualmente, evidentemente, cria vários Chiles”, avaliou.

Para o bispo de Aysén, a pobreza é fruto de uma concepção do ser humano e a sociedade necessita de pobres para que existam ricos. Esta seria a razão fundamental do porquê da campanha buscar declarar a pobreza ilegal, refletindo uma evolução no pensamento, em favor da igualdade de oportunidades e das liberdades do indivíduo.

Infanti assinala ainda que é necessário realizar mudanças profundas na área educacional, considerando a educação um segmento em que a desigualdade se manifesta de maneira mais evidente e, a partir de onde, atualmente, é impulsionada e facilitada a pobreza. O bispo destaca que a campanha não é uma iniciativa da Igreja Católica, que esse tipo de pensamento não é compatível com a religião.

O que é a Declaração de Direitos Humanos

A Declaração foi adotada pela ONU em 10 de dezembro de 1948, delineando os direitos humanos básicos e lançando alicerces ideológicos para todas as nações. Ele funciona como referência para a constituição de pactos e acordos internacionais, além de apontar caminhos para a atuação dos Estados, internamente.

Entenda o neoliberalismo

O neoliberalismo se apoia em ações de liberalização econômica, como privatização de bens públicos, livre-comércio, mercados abertos, desregulamentação e reduções nos gastos dos governos, com vistas a reforçar o papel do setor privado na economia. A partir desse tipo de entendimento político-econômico, o Estado substitui a oferta de serviços públicos à população por subsídios para a atuação do serviço privado nas necessidades dos cidadãos, gerando um desenvolvimento dependente do capital financeiro. Isso repercute na intensificação da desigualdade de oportunidades entre as pessoas.


Fonte: Adital

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