quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Brasil faz um de seus carnavais mais politizados


Beija-Flor fez críticas ao "Brasil monstruoso" e sua violência e corrupção



Com um desfile chocante da Beija-Flor, o Brasil encerrou na madrugada desta terça-feira (13/02) um Carnaval fortemente marcado por críticas e reivindicações, num levante simbólico contra males como a violência e a corrupção, sem esquecer a intolerância e a discriminação.

As celebrações do Carnaval em todo o país ridicularizaram líderes locais e mundiais, pediram tolerância e desafiaram limites. A festa foi aproveitada por muitos brasileiros para fazer críticas num momento de intensa insatisfação com a classe política e temores de problemas econômicos como consequência da recessão.

Um dos maiores destaques da festa politizada deste ano no Sambódromo do Rio de Janeiro foi o desfile da Paraíso do Tuiuti, cuja comissão de frente recebeu o Estandarte de Ouro do jornal O Globo, considerado a segunda premiação mais importante do Carnaval carioca.

A escola da zona central do Rio, que questionou se a escravidão realmente acabou no Brasil, satirizou o presidente Michel Temer e suas reformas neoliberais, especialmente a reforma trabalhista e sugestões de redefinição do trabalho escravo, com um destaque chamado de "Vampiro do Neoliberalismo", no carro alegórico que representava um navio negreiro dos dias atuais. O enredo "Meu deus, meu deus, está extinta a escravidão?", lembrou os 130 anos da Lei Áurea e falou do trabalho precário.

Paraíso do Tuiuti retratou Michel Temer como "Vampiro do Neoliberalismo"


Destaque contra a intolerância

As críticas implacáveis do Carnaval foram dirigidas a políticos e empresários corruptos, pregadores de todas as religiões e incorporaram também denúncias contra a discriminação.

Em homenagem à comunidade LGBT, a Beija-Flor convidou para o seu desfile na segunda duas estrelas da contracultura brasileira do momento, a cantora drag queen Pabllo Vittar e a revelação do funk Jojo Todynho. Elas foram destaques em um carro alegórico que falava sobre a intolerância, numa festa que comemora tanto a sexualidade quanto a diversidade – mas num país que está entre os que têm as taxas mais altas de violência contra pessoas gay e transgênero na América Latina.

Pabllo Vittar tem vários vídeos com milhões de visualizações no YouTube. O da música Todo Dia atraiu 216 milhões de cliques. Sensação da cena pop brasileira, Vittar havia dito, em entrevista recente à revista Época, que tratar de temas como homofobia e transfobia nas ruas do Brasil é importante "para divulgar essa mensagem [de tolerância] todos os dias".

Também na segunda, a organização Grupo Gay da Bahia organizou seu concurso anual de fantasias LGBT em Salvador, incluindo performances que destacaram as altas taxas de violência contra mulheres, gays e transgêneros no país.

Já na cidade pernambucana de Olinda, os foliões desfilaram com bonecos gigantes que satirizaram figuras políticas como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o líder norte-coreano Kim Jong-un, além de homenagearem celebridades tanto brasileiras quanto internacionais, como Michael Jackson e os Beatles.


"Brasil monstruoso"

A Marquês de Sapucaí serviu de palco para a Beija-Flor retratar um "Brasil monstruoso", inspirado no romance Frankenstein, e apresentar as cenas de violência vividas por milhões de pessoas nas favelas do Rio.

A escola, última das seis a se apresentar no segundo dia de desfiles cariocas, é tida como uma das favoritas desta edição e, além de fazer sucesso com o público – que continuou cantando o enredo após o encerramento do desfile – chegou a receber aplausos de jurados, segundo mostrou foto divulgada pela Folha de S. Paulo.

Com uma sátira cuja intenção era ser um "grito de alerta" contra o modelo social, político e religioso do país, seu enredo, "Monstro é aquele que não sabe amar", reproduziu extremos que sacudiram o público.

Uma mulher que segurava o corpo de um policial morto, evocando a Pietá de Michelangelo, encerrou uma parada em que se viram crianças baleadas em caixões, pais e mães carregando os corpos de seus filhos feridos, jovens apontando armas para a cabeça de suas vítimas e arrastões.


Carnaval de protesto

A Portela, campeã do ano passado, criticou a intolerância falando de um grupo de judeus perseguidos na Europa e refugiados no Brasil, onde passaram a enfrentar discriminação de colonizadores portugueses.

O Salgueiro encheu a Sapucaí de cor numa denúncia contra o racismo e uma homenagem às mulheres negras do Brasil, inspirada num tributo carnavalesco a Xica da Silva, há 55 anos.

Apesar de também apresentar enredos mais suaves, observadores apontam a edição de 2018 do carnaval do Rio como o "Carnaval do protesto" porque a estreia, na noite de domingo, também foi dominada pela crítica política.

Além das alusões da Paraíso do Tuiuti, a Mangueira atacou o prefeito do Rio, o evangélico Marcelo Crivella (PRB), que não esconde que considera o Carnaval uma "celebração pecaminosa" e viajou para a Alemanha depois de ser criticado durante a maior festa brasileira.

No ano passado, Crivella anunciou cortes pela metade nos financiamentos municipais destinados às escolas de samba, ajudando assim a estimular a politização dos enredos.

Membro da escola Paraíso do Tuiuti "bate panelas" na Sapucaí


A escola verde e rosa transformou Crivella num boneco de Judas numa das alegorias, ostentando também placas com os dizeres: "Prefeito, pecado é não brincar o Carnaval!". Segundo o jornal O Estado de S. Paulo, o prefeito divulgou nota se dizendo vítima de "intolerância religiosa" após o desfile. O nome do prefeito também foi pintado na bunda de um boneco da escola.

Durante a ausência de Crivella, multiplicaram-se os roubos nos blocos de rua, assim como os arrastões em praias de bairros da zona Sul da cidade, como Ipanema e Leblon.

No olho do furacão, as autoridades do Rio de Janeiro, que inicialmente disseram sentir-se satisfeitas com o contingente de segurança de 17 mil agentes destacado para o Carnaval, tiveram que anunciar reforços de segurança nas zonas mais turísticas da cidade.

Algumas escolas do Grupo Especial de São Paulo também aproveitaram o carnaval para criticar a situação política, econômica e social do Brasil. A X-9 Paulistana abriu o segundo dia de desfiles no Sambódromo do Anhembi, no último sábado (10/02), e teve um carro alegórico com pessoas fantasiadas de juízes e políticos com notas em cuecas e malas de dinheiro. Já a Império da Casa Verde, que desfilou depois da X-9, comparou o Brasil de hoje ao período da Revolução Francesa.

Grupos feministas também vêm usando o Carnaval para destacar e combater o assédio sexual. Muitos blocos de rua têm temas feministas e várias mulheres usam tatuagens temporárias ou adesivos com dizeres como "não é não". Autoridades também lançaram campanhas para estimular mulheres a denunciar assédio à polícia.


Fonte: Jornal Deutsch Welle (Alemanha)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Carnaval de protesto: Paraíso do Tuiuti fala de escravidão em desfile com críticas político-sociais


Ala dos manifestantes fantoches


Alçada ao grupo de elite das escolas de samba do Rio em 2017, após vencer a segunda divisão em 2016, o Paraíso do Tuiuti foi a quarta escola a desfilar na primeira noite de apresentações no Rio de Janeiro, já na madrugada desta segunda-feira, 12, com um desfile corajoso e rico em ironias. A escola discorreu sobre a escravidão no Brasil e defendeu a ideia de que ela ainda não acabou, apenas mudou de forma.

Usando o enredo “Meu Deus, meu Deus, está extinta a escravidão?”, sobre os 130 anos da Lei Áurea, a agremiação fez duras críticas ao atual governo e expôs, em uma das alas, como a reforma trabalhista e da Previdência representariam essa nova escravidão no Brasil.


O carnavalesco Jack Vasconcelos partiu dos navios negreiros do século 16 e chegou ao "cativeiro social" dos dias de hoje, marcado por desigualdades sociais e precarização do trabalho. As últimas alas e o último carro alegórico, bastante aplaudidos, faziam críticas à reforma trabalhista e sugeria o presidente Michel Temer (PMDB) como vampiro.


Foi uma apresentação de início e fim fortes.

A comissão de frente, com escravos acorrentados açoitados por um feitor, impressionou, assim como a menção às disparidades brasileiras, mostradas no último carro: o andar de cima, com banqueiros e aristocratas, e o de baixo, com o proletariado, domésticas, operários e motoristas.

A ala "Guerreiros da CLT" trazia carteiras de trabalho chamuscadas, alusão à reforma trabalhista, e outra ala de destaque no desfile da Tuiuti foi a dos “manifestantes fantoches” ou "manifestoches", que ironizou os chamados paneleiros que saíram às ruas com camisetas do Brasil pedindo o impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff. A escola de samba utilizou mãos gigantes representando a mídia, que controlava esses paneleiros envolvidos por patos amarelos, em referência à campanha da Fiesp contra o aumento de impostos que inflamou a população contra o governo petista.

Assista o desfile na íntegra:



Fonte: Jornal O Globo / Revista Fórum / Jornal O Estado de São Paulo (Estadão) / Jornal Mídia Ninja

Fórum Social Mundial 2018 - Salvador / BA


As inscrições para o Fórum Social Mundial 2018 (FSM 2018) já estão abertas no site www.fsm2018.org. Os interessados podem se inscrever nas modalidades: Participante, Comitê e Grupo de Trabalho, Entidade, Atividades, Inscrições Solidárias e Casos Especiais. O prazo para as inscrições vai até o dia 20 de fevereiro de 2018, com exceção para as inscrições de participantes e de organizações que podem ser feitas online, até o dia 10 de março, e no local durante o evento.

O FSM 2018 será realizado entre os dias 13 e 17 de março do ano que vem e terá como território principal o Campus de Ondina, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), mas outros espaços de Salvador também abrigarão atividades do evento. Do Parque do Abaeté, em Itapuã, ao Parque São Bartolomeu, no subúrbio, vários locais se tornarão territórios de diálogo e convergência do Fórum.

Apenas coletivos ou organizações podem inscrever Atividades que farão parte da programação do Fórum, e que serão autogestionadas. Ou seja, as organizações devem ficar responsáveis por definir os nomes de palestrantes e suas presenças em Salvador, por meios próprios e seu formato das atividades. Já a organização do FSM 2018 garantirá o espaço para a realização da atividade proposta e divulgação da mesma na programação no site do Fórum.

Resultado de um longo processo de diálogo no Coletivo Brasileiro e consultas nacionais e internacionais, as Atividades poderão ser inscritas a partir de 19 eixos temáticos, que vão da “Comunicação e Mídia Livre”, passando por “Migrações” e “Vidas Negras Importam”.

Para a edição do FSM 2018, a novidade é unir aos eixos, lemas e bandeiras com o intuito de contribuir ao processo de mobilização e articulação das resistências entre si, que são abertos e podem ser propostos por redes, plataformas, organizações e movimentos sociais. Alguns lemas já sugeridos em consultas feitas no site do Fórum são: “A vida não é mercadoria”, “Nada sobre nós, sem nós”, “Cidadania sem Fronteiras”, entre outros.

Os eixos temáticos do FSM 2018 são:
  • Ancestralidade, Terra e Territorialidade;
  • Comunicação, Tecnologias e Mídias livres;
  • Culturas de Resistências;
  • Democracias;
  • Democratização da Economia;
  • Desenvolvimento, Justiça Social e Ambiental;
  • Direito à Cidade;
  • Direitos Humanos;
  • Educação e Ciência, para Emancipação e Soberania dos Povos;
  • Feminismos e Luta das Mulheres;
  • Futuro do FSM;
  • LGBTQI+ e Diversidade de Gênero;
  • Lutas Anticoloniais;
  • Migrações;
  • Mundo do Trabalho;
  • Um Mundo sem Racismo, Intolerância e Xenofobia;
  • Paz e Solidariedade;
  • Povos Indígenas;
  • Vida Negras Importam.

Fonte: Site do CEAM/UnB

Artigo - Igrejas neopentecostais ameaçam democracia na América Latina

Foto: Fernando Gabeira (Folhapress)
O bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, de joelhos


Por: José Ospina-Valencia*


A luta das igrejas neopentecostais na América Latina é uma luta pelos pobres: por sua consciência, por suas carteiras e por seus votos. Seu êxito se deve também ao fracasso da Igreja católica em atender às necessidades de milhões que buscam apoio num mundo cada vez mais fustrante e sem aparente futuro. E a história de abusos sexuais do dogma católico deixou, além disso, um rastro de repúdio em vários países e contribuiu para a erosão de um poder passado.

Assim, os mais necessitados são recrutados por pastores protestantes que se autodenominam "cristãos" e que, com frequência, têm mais espírito comercial que religioso.

Apesar de o movimento pentecostal ter sido criado em 1906 nos Estados Unidos, são as novas seitas e igrejas fundadas na mesma América Latina as responsáveis pelo auge que ameaça não somente a supremacia da Igreja católica como os princípios democráticos.

Um movimento que parece germinar especialmente no Brasil, na Colômbia, no México, no Peru, na República Dominicana e na Venezuela. No Brasil, haveria 42,3 milhões de fieis, equivalentes a 22,2% da população. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cada ano abrem no país 14 mil novas igrejas neopentecostais.

Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus, considerado pela revista Forbes "o pastor mais rico do Brasil", é proprietário da Record, a segunda rede de televisão mais importante do país. Seu tema favorito: a moral.

O caso da Costa Rica é exemplar: bastou que o pastor e cantor Fabricio Alvarado, candidato à presidência, rechaçasse vociferante o chamado da Corte Interamericana de Direitos Humanos para respeitar os direitos da comunidade LGBTI para que ganhasse o primeiro turno da eleição.

Na Venezuela, por seu lado, milhões não viram outra saída senão refugiar-se em igrejas com nomes como "Pare de sofrer". Já a Guatemala é governada por um humorista e pastor evangélico, Jimmy Morales, que é contra o aborto, recusa o casamento homoafetivo e tem mais receitas contra as minorias do que soluções para a corrupção galopante.

Por todo o continente, há também "casos de superação" de pastores que saíram da pobreza abrindo uma igreja em garagens e que rapidamente se transformam num "exemplo de êxito" com estrambóticos templos e um poder econômico e político inusitados.

O caso de María Piraquive, que deixou de ser costureira num bairro operário de Bogotá, e que com sua Igreja de Deus Ministerial de Jesus Cristo Internacional (Idmji) construiu, desde 1972, um império multimilionário com propriedades em vários países, e a criação de um partido político, são símbolos desse ímpeto. Hoje, a igreja de Piraquive tem cerca de mil sedes em mais de 50 países e até representações em sete Estados federados da Alemanha.

É assustador é que muitos desses pastores tenham tanto êxito com ideias excludentes e um discurso de ódio. Em suas pregações, Piraquive descarta que pessoas com deficiência física possam assumir a veiculação da "palavra de Deus". Uma postura discriminatória em todos os países latinoamericanos, que, pelas suas Constituições, se definem como pluralistas e laicos, fundados sobre o respeito e a dignidade humana, e garantidores da liberdade de expressão e de culto.

Paradoxalmente, apesar de essas sociedades terem avançado cultural e economicamente, também graças ao princípio liberal e protestante de que "os pensamentos são livres", o movimento neopentecostal ataca o Estado de opinião. O radicalismo de suas ideias contra as conquistas dessas sociedades abertas, como a abolição da pena de morte, a autodeterminação da mulher e o respeito aos direitos das minorias é difamado como uma suposta "ideologia de gênero" que pretende destruir a família e a moral.

Seus votos fizeram pesar a balança para o lado da recusa do acordo de paz na Colômbia em 2016. Acabar com uma guerra fratricida para salvar vidas pareceu pesar menos que o princípio de retaliação "olho por olho, dente por dente".

E, enquanto as escolas e universidades na América Latina têm de pagar impostos prediais, as igrejas estão isentas de qualquer contribuição, pelo menos na Colômbia, onde até 2017 havia 750 colégios públicos – contra 3.500 igrejas neopentecostais. A recepção diária de dízimos forma a base do poder econômico, convertido em poder político, que, graças a uma agenda moralizadora, está conquistando a política na América Latina.

O teólogo alemão e pastor luterano Thomas Gandow adverte que muitos pregadores neopentecostais atentam contra o espírito do mesmo protestantismo que defendem, que não pode ser expressado com fanatismo, "porque o espírito do protesto não pode ser outro senão o da liberdade". O resto é retrocesso.


José Ospina-Valencia
é jornalista da redação da DW em espanhol.


Fonte: Jornal Deutsch Welle (Alemanha)

'Pornografia infantil, violência, você tem que estar preparada para tudo': o relato de uma moderadora do Facebook

Revisores de conteúdo do Facebook acabam se deparando com imagens de violência e pornografia infantil


"O que mais tem é pornografia", diz Sara Katz, ao se lembrar dos oito meses em que trabalhou como moderadora do Facebook.

"A agência foi muito direta sobre o tipo de conteúdo que veríamos e o quão gráfico era, portanto sabíamos o que estávamos enfrentando", declara.

Katz se refere a uma agência de moderadores humanos com sede na Califórnia, nos Estados Unidos, que o Facebook e outras empresas contratam. Ela trabalhou com isso em 2016.

A tarefa de Katz consistia em revisar as queixas sobre conteúdo inapropriado que chegavam dos usuários do Facebook.

Não era uma tarefa tranquila. "Davam para a gente cerca de um minuto por publicação, para decidir se era spam e tinha que ser apagado. Às vezes, apagávamos a conta associada à postagem também", explica.

"A gerência não gostava que trabalhássemos mais que oito horas por dia, e revisávamos uma média de 8 mil publicações por dia, mil por hora."

Katz diz que "aprendeu bastante" no período, mas destaca que, se tivesse que descrever o trabalho com uma só palavra seria, "extenuante".


Imagens ilegais

"Definitivamente você tem que estar preparado para ver qualquer tipo de coisa em apenas um clique. As imagens chegam de repente, sem aviso prévio", diz.

A que mais a impactou foi uma fotografia que sugeria pornografia infantil. "Era de um menino e uma menina. O menino tinha uns 12 anos, e a menina, oito ou nove. Eles estavam de frente um para o outro, sem calça", descreve.

"Parecia que um adulto estava dizendo a eles o que fazer. Foi muito perturbador, principalmente porque dava para ver que era real."


Publicações que se repetem

"Muitas dessas publicações explícitas circulavam continuamente. Víamos passar por seis contas distintas ao longo do dia, mas era difícil achar a fonte original", se lembra.

Katz diz que, na época em que fazia o monitoramento de publicações, não havia para os funcionários serviços de aconselhamento e ajuda psicológica. "Pode ser que hoje exista, não tenho certeza", afirma.

Ela reconhece que, se tivessem oferecido esse tipo de apoio em 2016, ela certamente teria aceitado a ajuda.

"Definitivamente te advertem, mas ser alertado e ver são duas coisas diferentes", destaca.

"Alguns pensam que podem lidar com a situação, mas acabam vendo que não conseguem, porque a realidade é pior do que esperavam."


Violência gráfica

Katz avalia que os moderadores acabam se tornando, muitas vezes, "bastante insensíveis" com o tempo. "Não diria que é mais fácil (ver imagens violentas e de pornografia), mas você se acostuma", explica.

"Obviamente havia muito mais pornografia genérica entre adultos, o que não era tão perturbador."

Em alguns casos, as fotografias incluíam animais. "Tinha uma imagem com um cavalo que circulava com frequência", recorda.

E também apareciam muitas cenas violentas. "Lembro de uma publicação em que arrancavam a cabeça de uma mulher", conta.

"Parte do corpo dela estava no solo, e a outra metade, o torso, numa cadeira", descreve.

"A política era mais rigorosa para a eliminação de pornografia que para violência gráfica."

Notícias falsas

"Creio que as notícias falsas pegaram o Facebook de surpresa", diz Katz.

"Durante a campanha para as eleições dos Estados Unidos era algo que estava fora do radar, ao menos durante o tempo em que eu trabalhei ali."

"Realmente não me recordo de ter escutado muito o termo 'fake news'", assegura.

"Circulava uma grande quantidade de artigos que eram denunciados pelos usuários, mas não me lembro de os gerentes pedirem que verificássemos se os fatos correspondiam à realidade", conta.

Embora tenha tido contato com algumas imagens perturbadoras, em geral, o trabalho de moderador era "monótono", diz ela.

"Realmente você acaba se acostumando a identificar o que é spam e o que não é. Simplesmente, a atividade se converte numa monotonia de cliques."

Perguntada se recomendaria o trabalho, ela é taxativa: "Se você puder fazer qualquer outra coisa, eu diria que não".


A resposta do Facebook

A BBC encaminhou o relato de Katz ao Facebook. Em resposta, um porta-voz da empresa disse: "Nossos revisores desempenham um papel crucial para fazer do Facebook um local seguro e aberto".

A rede social reconheceu que o trabalho de moderador "pode ser muito desafiador". "Queremos assegurar que (os moderadores) estejam devidamente respaldados."

"Por isso, oferecemos capacitação regularmente, assessoramento e apoio psicológico a todos os nossos empregados e a todos os que trabalham para nós por meio de nossos sócios", completou.

O Facebook também disse que, embora use inteligência artificial sempre que possível, existem mais de 7 mil pessoas que revisam conteúdo da rede social. "Cuidar do bem estar deles é uma verdadeira prioridade nossa."


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

Nota Pública NEDIG | CEAM pelo Dia Nacional da Visibilidade Trans


O dia 29 de janeiro é celebrado como Dia Nacional da Visibilidade Trans, que marca a luta diária das pessoas travestis, mulheres e homens transexuais que reivindicam direitos de ir e vir, de existir e resistir em uma sociedade que não os/as aceita e os/as mata. A data representa um marco temporal para as pessoas trans brasileiras, e foi estabelecida em 29/01/2004, com o lançamento da campanha do Ministério da Saúde intitulada “Travesti e Respeito”. Entretanto, mais do que um dia para celebrar, a data marca a luta, a existência, a resistência e a visibilidade das pessoas travestis e transexuais contra a extrema violência e a exclusão social a que são submetidas diariamente no Brasil.

Segundo o relatório da ANTRA - Associação Nacional de Travestis e Transexuais que publica pela primeira vez, de forma sistematizada, os dados de violência no Mapa dos Assassinatos de Travestis e Transexuais no Brasil em 2017 (disponível em https://antrabrasil.org/mapa-dos-assassinatos/) o número de homicídios chegou em 179 casos, números que reforçam uma violência marcada pelo ódio, pela violência de gênero. Ressalta-se que dos 179 assassinatos contabilizados no mapa, 169 são travestis e mulheres transexuais, e 10 são homens transexuais. O relatório ainda nos mostrou que somente 10% dos casos teriam tido seus suspeitos/agressores presos, o que reforça a ineficácia do sistema de justiça nas investigações e responsabilização nos casos de violência contra LGBTI+ pela ausência de marco legal.

Motivação de pesquisa da professora Sayonara Nogueira, as violações de direitos humanos e a violência contra pessoas travestis e transexuais, resultou na publicação do Dossiê A Carne mais Barata do Mercado, Observatório Trans anteriormente vinculado pela organização RedeTrans Brasil e hoje, disponível em http://observatoriotrans.org/observat%C3%B3rio-de-viol%C3%AAncia e é dividido em dados de violações de direitos humanos, tentativa de homicídios e homicídios. Segundo o relatório, em 2017 o monitoramento da pesquisa revelou que as violações de direitos humanos somaram 114 casos contra 54 em 2016, um aumento de 111%; tentativas de homicídios em 2017, 58 casos contra 52 em 2016, aumento de 11%. Em relação a homicídios, os dados contam 185 casos em 2017 e 144 em 2016, aumento de 28%. Em 2017, o relatório trouxe importantes informações sobre mortes associadas ao uso de silicone industrial (6) e suicídio (7).

Todos estes números colocam o Brasil no primeiro lugar do ranking entre os países que mais matam pessoas transexuais e travestis, conforme relatório publicado pela organização internacional TGEU – Transgender Europe (disponível em http://tgeu.org/tmm-idahot-update-2015/).

E não é possível desvincular estes dados ao fato de que, ainda hoje, a comunidade trans é marcada pelo estigma da patologização, que é uma estratégia de desumanização e negação de direitos. O não reconhecimento das identidades trans é o primeiro direito subtraído (o direito de existir), prendendo as pessoas transexuais e travestis sempre a este espaço de subcidadania.

O extermínio sistemático, também se faz presente no não acesso às políticas públicas, em especial as políticas de educação, uma vez que o espaço escolar, que ainda funciona com metodologias tradicionais e excludentes, reproduzem violências e violações de direitos contra esta população. Destacamos a grave retiradas de direitos, discriminação e exclusão promovida pela a atuação de conservadores e fundamentalistas religiosas, sobretudo nas casas legislativas, ao retirarem dos Planos de Educação temas relacionados a gênero e sexualidade, contribuindo para a construção de uma sociedade que produz violências e mortes. A transfobia DESEDUCA!

Por fim, queremos marcar a invisibilidade nas universidades e nas pesquisas, seja na ausência de travestis e transexuais nos corredores, carteiras e cadeiras escolares, ou ainda na produção de planos de aulas e pesquisas.

Desta forma, manifestamos nessa nota nosso apoio à luta pela visibilidade e cidadania de travestis e transexuais e conclamamos a sociedade brasileira a se somar na luta por dignidade, respeito e o direito de viver! E ao Estado brasileiro exigimos, com urgência, a implementação de políticas públicas para mudar este trágico cenário de exclusão e extermínio!


Viva as travestis, viva as pessoas transexuais, viva a luta e a vida!


Brasília, 29 de janeiro de 2018.


Núcleo de Estudos de Diversidade Sexual e de Gênero (NEDIG | Ceam | UnB)


Fonte: Site do CEAM/UnB

Ex-funcionários do Facebook e do Google criam campanha para proteger crianças do vício em redes sociais

Ex-funcionários do Google e do Facebook dizem que empresas de tecnologia atuam para atingir e manipular crianças


No atual debate sobre os impactos negativos que as redes sociais e os smartphones podem ter na saúde dos usuários e na sociedade, o mais recente alerta vem dos profissionais que ajudaram a criar esses produtos e ferramentas.

Um grupo de ex-funcionários do Google, do Facebook e de outras grandes companhias do Vale do Silício acaba de lançar nos Estados Unidos uma campanha para informar o público sobre os riscos da tecnologia digital, especialmente para crianças, e pressionar as empresas do setor a serem mais transparentes.

O grupo, denominado Center for Humane Technology (Centro para uma Tecnologia Humana, ou CHT na sigla em inglês), uniu esforços com a Common Sense Media, organização sem fins lucrativos que promove tecnologia segura para crianças, em uma estratégia que inclui ações em 55 mil escolas públicas em todo o país, lobby no Congresso, novas pesquisas científicas sobre o tema e ações conjuntas com engenheiros e designers em busca de produtos mais saudáveis.

O objetivo, dizem os idealizadores, é proteger jovens usuários do que consideram "esforços deliberados" das empresas para atingir e manipular esse público.

"As empresas de tecnologia estão conduzindo um experimento em massa e em tempo real com nossas crianças", disse o CEO e fundador da Common Sense, James Steyer, no lançamento da campanha, batizada de The Truth About Tech ("A Verdade Sobre a Tecnologia").

"Seu modelo de negócios geralmente as estimula a fazer o possível para capturar a atenção e dados, deixando para se preocupar com as consequências depois, mesmo que essas consequências possam às vezes prejudicar o desenvolvimento social, emocional e cognitivo das crianças", afirma Steyer, ressaltando a necessidade de responsabilizar essas companhias por suas ações.


Riscos

Segundo especialistas da Common Sense e do CHT, entre os riscos associados ao vício em tecnologia digital estão distúrbios de atenção, perda de produtividade, dificuldade de pensamento crítico, depressão, estresse, ansiedade e pensamentos suicidas.

Dados da Common Sense indicam que 98% das crianças americanas com menos de oito anos de idade têm acesso a um dispositivo móvel em casa, por meio do qual podem estar expostas a mensagens de ódio, notícias falsas e aplicativos projetados para mantê-las conectadas pelo maior tempo possível.

Em pesquisa nacional realizada em 2016, metade dos adolescentes entrevistados disseram ser viciados nesses dispositivos.

"Nos últimos dois ou três anos, percebemos que as plataformas sociais estão invadindo as vidas de nossas famílias e de nossas crianças", disse à BBC Brasil a porta-voz da Common Sense, Maria Alvarez.

"Nós entendemos que a tecnologia veio para ficar e vai ter um papel cada vez maior na vida das pessoas. Queremos garantir que os jovens cresçam tirando proveito dessas ferramentas poderosas, mas de maneira segura", ressalta.

Em resposta à campanha, o Facebook declarou que é "uma parte valiosa da vida de muitas pessoas".

"Nós levamos nossa responsabilidade a sério e já tomamos medidas, incluindo mudanças recentes no News Feed e controles parentais incluídos no Messenger Kids, que é livre de anúncios", disse Antigone Davis, diretora de segurança global do Facebook. "Estamos comprometidos em fazer parte desse diálogo."

Procurado pela BBC Brasil, o Google não se posicionou até a conclusão desta reportagem.

Preocupações

O CHT foi fundado por Tristan Harris, que era responsável por questões éticas no Google, e inclui nomes como Justin Rosenstein, o criador do botão de "curtir" no Facebook, Lynn Fox, ex-executiva de comunicações da Apple e do Google, e Sandy Parakilas, ex-gerente de operações do Facebook.

Em seu manifesto, o CHT diz que esse grupo de profissionais entende "intimamente a cultura, incentivos de negócios, técnicas de design e estruturas organizacionais que guiam como a tecnologia sequestra nossas mentes".

A campanha é lançada em meio à discussão sobre o impacto que notícias falsas disseminadas pelas redes sociais tiveram nas eleições americanas em 2016 e em um momento em que vários nomes da indústria de tecnologia vêm manifestando preocupação sobre os efeitos negativos de seus produtos.

No ano passado, um ex-executivo do Facebook, Chamath Palihapitiya, chamou a atenção ao declarar que a rede social estava destruindo os fundamentos da sociedade. O CEO da Apple, Tim Cook, confessou recentemente que não gostaria que seu sobrinho usasse redes sociais.

Em janeiro, mais de cem pediatras e educadores enviaram carta aberta ao Facebook pedindo o fim do Messenger Kids, serviço de mensagens específico para crianças.

Estratégias

Diante desse cenário, a campanha pretende engajar especialistas, investidores e executivos da indústria em busca de reformas que reduzam o potencial nocivo de seus produtos. O CHT está desenvolvendo um guia com "padrões de design ético" para orientar engenheiros e designers.

Os organizadores pretendem fazer lobby por leis que restrinjam o poder e exijam mais transparência por parte das grandes empresas de tecnologia e que criem melhores proteções para os consumidores.

Outra iniciativa será uma ampla pesquisa sobre a magnitude do vício em tecnologia digital entre jovens, que pretende avaliar as consequências físicas e mentais e os impactos de curto e longo prazo.

Nas escolas, as ações incluem material para ajudar professores a discutir com seus alunos o vício em tecnologia digital e as estratégias usadas pelas empresas para prender a atenção dos usuários.

"Queremos educar os jovens sobre como as empresas de tecnologia atuam, para que eles entendam por que se sentem tão viciados em seus telefones", observa Alvarez.

"Sabemos que não vai ser fácil, mas é encorajador ver que há um número crescente de pessoas-chave na indústria falando sobre isso."


Fonte: Jornal BBC Brasil (Reino Unido)

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